A alcova de Almodóvar se abriu
A porta era umbral de sonhos
E para lá carreguei um homem
Que seria meu amor
Aquele em quem confiava
E queria fazer amor

Ah! Quantos devaneios
Anseios em realização
Beijos em minhas costas
Mordiscadas em minha nuca
Eu ali exposta
Me entregando ao homem desejado
Oferecendo ardor

Ele de mim se apossando
Meu corpo acariciando
Meu finalmente
Sensual e libertino
Em meu sapato bebeu champanhe
Em minha fenda me sorveu

Eu perdida em delícias
Saboreei seu corpo gostoso
Nele cavalguei
E mais nos entregamos
Mais me penetrou
E meus múltiplos orgasmos
O excitaram demais
Do gozo a explosão
Selou nossa paixão

Depois
Deitado olhava o teto
Expressão de extasiada satisfação
Eu olhando seu corpo relaxado
Imaginava que ele estava comigo enlaçado
Que comigo teria cuidados
Zelo e ciúme
Como todo apaixonado

Na madrugada ele se foi
Eu fiquei acordada
Revivendo cada momento
Nele meu pensamento
Querendo mais dele ter

A manhã me pegou desperta
Porta do quarto ainda aberta
Como estava todo o meu ser

Deliciosa a crença
De a ele pertencer

As horas passaram lentas
Queria notícias do meu homem saber

Nem um telefonema
Eu desaguando em poema

Nem um alô
Eu coração apertado cheio de dor

Ninguém em minha porta
Eu de esperar quase morta

Nada que demonstrasse sua alegria
Eu em agonia

Vazio existencial
Quem sou pra ele afinal?

Serei mais uma em sua lista?
Não! Ele não deu esta pista!

Serei apenas a mais difícil conquista?
Não, ainda não me conquistou por inteiro!

Serei o amor derradeiro?
Prefiro esta opção...

Mas não consigo suportar o silêncio
Este me saboreia e se vai
A sensação de estar solta
De a ninguém pertencer

Quero me sentir possuida
Na ausência ou na cama

Quero ser dele a dama
A fêmea
A mucama
A senhora
A mulher
A meretriz

Mas ele nada me diz!
E o vazio existencial
Fica físico
É dor corporal

E nossa trilha sonora
Tem sabor de vou embora
Não quero você mais

Eu estava sozinha
Num canto quietinha
Não queria amar ninguém

Porque veio e não ficou?
Porque me acenou com amor?
Porque este jogo?
Para que acender em mim o fogo?

Homens!!
Não vou entendê-los jamais
E nem é minha pretensão
Quero é com um deles viver
Amor de me perder

É, cometi um engano
Vivo pela primeira vez
O vazio existencial...

Não é dor de saudade
É a estupefação
De ter aberto minha morada
Para um mero passageiro
Alguém que não devia ter cruzado o umbral

Recolho a garrafa de champanhe
Junto com ela
Vai para o lixo
Meu par de escarpin vermelho

Não quero que fiquem marcas
De um visitante ocasional

Adeus passageiro errante
Adeus vazio existencial

Nesta história só o que cabe
É mesmo
Ponto final



13 de dezembro de 2003
14:31h



 

 

 

 

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