Me vejo deitada
Me vejo pelada
Me vejo uma estrada
Me vejo coitada
Me vejo sem mim

Me vejo tão triste
Me vejo tão quieta
Me vejo tão vazia
Me vejo tão sozinha
Me vejo sem ti

E então tu passas
Me enche de graça
E por mais que eu faça
Não olhas pra mim

Me cubro
Me encolho
Choro só
É ruim

Ah! Se eu pudesse
Mostrar-me por dentro,
Coração, pensamento
Falar do meu centro
Entregar-me pra ti

Ah! Se eu pudesse
Viver este encontro
Contar o que sinto
Provar que não minto
Trazer-te pra mim

Ah! Se eu pudesse
Viver por um momento
O sabor de ter-te
Bem dentro de mim

Ah! Se eu pudesse
Depois deste encontro
Guardar nas entranhas
Uma parte de ti

Então, viajante
Eu saberia
Que mesmo distante
Estarias em mim

Poema inseguro
Que fala de muros
Que nos separam
E doem em mim

Poema tristonho
Desesperançado
Provoca revolta
Me afasta de mim

Poema maduro
Que trata da vida
Mostrando feridas
Que fazes em mim

Me bato, me surro
Tento pular o muro
Não olho pra mim

Poema tão burro
Parece um urro
Um grito malvado
Mangando de mim

Poema maldito
Nada tem de bonito
Um drama, enfim

E assim vai a vida
Neste instante doída
Sem luz ou beleza
Como é bom ter certeza
Que isto tem fim

No poema me vejo
Insípida e feia
Não gosto de mim


Dezembro/1990


 

 

 
 


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